21.2.17

Estreleiras de São Lourenço

A ponta leste da ilha da Madeira é uma península estreita com cerca de 9 quilómetros de extensão, margens indentadas em arribas a pique, e um solo avermelhado que o vento forte, salpicado de maresia, se encarrega de erodir. Pela ausência de árvores, a paisagem desabrigada parece árida. Vencida, porém, a vereda que nos conduz ao topo, a partir da qual se descortina uma pequena enseada de areia escura (a Prainha), a impressão é mais animadora. Ao largo, avistam-se dois ilhéus, um deles classificado como reserva natural integral, onde esvoaçam cagarras e garajaus, nidificam muitas outras aves, e perto dos quais se podem observar, em dia de muita sorte, tartarugas, golfinhos e lobos-marinhos.



Isolado no extremo oriental da Madeira, e já sem os estragos dos piratas de outrora, este habitat mantém uma biodiversidade que vai rareando noutros pontos do litoral da ilha. A vegetação ali é rasteira, que a ventania não permite que se alteie o pescoço, mas este é um alfobre de plantas raras e muitos endemismos. O que lhe mostramos hoje pertence a um género de plantas subarbustivas (Argyranthemum) bafejado com várias espécies na Macaronésia, caracterizado por folhas em geral muito divididas e capítulos vistosos de lígulas brancas, amarelas ou cor-de-rosa. A subespécie das fotos, que só ocorre na Ponta de São Lourenço e nos dois ilhéus próximos, distingue-se pelas folhas suculentas quase inteiras, ou com lóbulos triangulares, que a protegem das agruras do clima. As estreleiras-de-São-Lourenço (se assim lhes podemos chamar) florescem na Primavera, no Verão... e também em Dezembro.


Argyranthemum pinnatifidum subsp. succulentum (Aiton) Webb & Berthel.


14.2.17

Madeira Fern Fest (3)



Polystichum falcinellum (Sw.) C. Presl



Para orientar os aficionados, talvez devesse ser estabelecida uma hierarquia de endemismos que tomasse em conta a área de distribuição e o grau de originalidade. Distribuições restritas seriam valorizadas, mas seria factor de depreciação a existência de espécies muito semelhantes com distribuição mais ampla. Às vezes a semelhança é de tal ordem que o reconhecimento ou não de que certa variante configura uma espécie (ou subespécie) autónoma depende do critério subjectivo de especialistas. Um endemismo de primeiro grau, chamemos-lhe assim, deverá ter distribuição muito restrita (o ideal é existir numa ilha só) e não deve poder ser confundido com outra coisa qualquer por botânicos dignos desse nome. Pese embora a raridade da Arachniodes webbiana na Madeira, ela de facto também existe (mais cromossoma, menos cromossoma) no sudeste de África, o que a impede de atingir esse patamar. É ao Polystichum falcinellum, o feto-das-pequenas-foices (tradução literal de falcinellum), que cabe inaugurar o panteão dos endemismos de primeiro grau no Madeira Fern Fest.

A flora da Madeira inclui dois Polystichum endémicos; o outro é o P. drepanum, quase extinto na natureza, que não tivemos a fortuna de encontrar. A esses soma-se o P. setiferum, comum na Madeira e nos Açores e na metade norte do território continental. O encontro na Madeira da espécie europeia com o P. falcinellum deu origem a um híbrido natural muito raro, baptizado como Polystichum × maderense, assim se comprovando como a arrumação dos dois fetos no mesmo género botânico está correcta, apesar das visíveis diferenças entre eles. A mais óbvia é que as frondes do P. setiferum são duas vezes divididas (bipinatissectas), enquanto que as do P. falcinellum o são apenas uma vez. No entanto, as pínulas (divisões de segunda ordem) do P. setiferum têm a mesma aurícula basal que sobressai nas pinas do P. falcinellum (compare esta foto com a 2.ª e 4.ª fotos acima). Independentemente do grau de divisão das frondes, a aurícula e o formato falciforme das divisões de última ordem são marcas distintivas do género Polystichum, que também podem ser detectadas no P. lonchitis, uma espécie holártica que não ocorre em Portugal.

O Polystichum falcinellum -- cujas folhas erectas e coriáceas, de uns 70 cm de comprimento máximo, se apresentam em tufos -- vive em zonas elevadas no centro e norte da Madeira. Evita as zonas mais húmidas da laurissilva, mas pode aparecer em grandes quantidades no patamar superior da ilha, abrigado em urzais ou em plantações de pinheiros e de outras coníferas. Os exemplares que se prestaram à fotografia moravam na sombra espessa de uma mata de Pseudotsuga menziesii junto à acolhedora Casa de Abrigo do Poiso, a uns 1400 m de altitude. Faziam-se acompanhar pelo P. setiferum (mas não havia híbridos) e por uma sortida amostra de outros pteridófitos que incluía três espécies de Asplenium, duas de Dryopteris e ainda, omnipresente na ilha, a Davallia canariensis. É a Madeira a imitar o padrão já nosso conhecido nos Açores, em que as plantações florestais de coníferas (criptomérias, no caso açoriano), se outro interesse florístico não têm, são fértil terreno de busca para o entusiasta por fetos.

7.2.17

Fajã dos goivos amarelos

A ilha da Madeira não tem praias de areais extensos, com areia fina e clara, como as do Porto Santo. Onde o bordo da ilha é acessível, há em geral umas pouco convidativas pedras roladas de cor cinza para deter os avanços do mar em dias de tempestade. No mais, as escarpas são a pique, sem escadinhas que sirvam a descida, e o chão é de terra e rocha perigosamente soltas. Contudo, se olharmos o fundo destas falésias com atenção, quase sempre se divisam campos de cultivo verdejantes, ramadas de vinha ou maracujá, além de casinhas minúsculas, gatos e abóboras. Em resumo: há por ali gente. Como conseguem vencer tais precipícios? A solução, nesta ilha onde as estradas percorrem muitos quilómetros em túneis, num sobe e desce enervante, mas raramente nos levam às fajãs, está num par de teleféricos.



Enquanto num deles descemos receosos, abanados pelo vento de Dezembro, o outro sobe calmamente, vazio ou com turistas animados a fotografar. Antes que o pânico nos domine, chegamos a terra e, já serenos e a rir do medo, ouvimos as ondas, aquecemos os pés e saboreamos o ar salgado. Estamos no litoral sul da Madeira, entre Cabo Girão e Câmara dos Lobos, num dos poucos lugares da ilha onde ainda existem populações do endemismo que lhe mostramos nas próximas fotos.



Erysimum maderense (L'Hér.) Polatschek



Pela semelhança com as três espécies do género Erysimum que conhecemos por cá (ainda que na Península Ibérica ocorram mais de vinte) e a de Porto Santo, não nos pareceu haver dúvida sobre a filiação destes arbustos nesse género, ainda que, ao contrário de outras espécies, nesta as flores não mudem de cor quando amadurecem. Mas isso é porque sabemos pouco. A abreviatura L'Hér. no nome científico refere-se ao francês Charles Louis L'Héritier (1746-1800) que, em 1788, chamou a esta espécie Cheiranthus tenuifolius. A designação actualmente aceite foi-lhe dada em 1976 pelo botânico austríaco Adolf Polatschek (nascido em 1932), um especialista na família Brassicaceae, em especial do centro e sul da Europa, Cabo Verde, Canárias e Madeira.

Junto ao mar, não há fiscal a controlar os bilhetes do teleférico, nem sequer um painel com horários. Vê-se apenas uma câmara de segurança que verifica se há passageiros à espera para subir, ou estes simplesmente accionam um botão para que a próxima viagem se inicie. Na subida, já não receámos sentar-nos voltados para o mar, a vê-lo afundar-se bordejado de pintinhas amarelas.

31.1.17

Madeira Fern Fest (2)

Asplenium aethiopicum subsp. braithwaitii Ormonde

A Madeira tem uma invejável rede de vias rápidas, servida por uma profusão de pequenos, médios e grandes túneis -- que, se nos permitem chegar mais rapidamente à almejada natureza, têm o inconveniente de dificultar o uso de GPS. A receita é conduzir a velocidade moderada, dando tempo ao aparelho para captar os satélites nos breves intervalos entre dois túneis. Quando tomamos as estradas secundárias, é uma outra ilha que se descobre, inalterada durante as décadas em que a Madeira Nova progredia a toda a brida. Em redor do Funchal, as vias labirínticas, estreitíssimas e quase a pique são um susto para o condutor desprevenido. Subindo para o interior da ilha e deixando para trás a malha urbana, as estradas normalizam-se e a condução faz-se sem dificuldades. Podemos estar atentos à vegetação das bermas, parando sempre que nos convenha, pois não foi para outra coisa que viemos. Três dos fetos que vão desfilar no Madeira Fern Fest, incluindo o de hoje, são estradeiros. Que os tenhamos encontrado nos mesmos locais das mesmas estradas onde foram assinalados há 30 ou 40 anos, apesar da modernização, dos incêndios e de outras catástrofes, é forte motivo para optimismo.

Este Asplenium aethiopicum prefere a vertente norte da ilha, mais arborizada e húmida, menos povoada. O muro alto de pedra solta onde o vimos empoleirado fica à face da estrada. Antigos campos de cultivo, invadidos por Pteridium, Arundo donax e outras plantas infestantes, pontuados por pinheiros e eucaliptos, dispõem-se em socalcos acima e abaixo da estrada. Do lado de lá de um vale, o casario branco trepa pela encosta. É uma paisagem rural, mas de uma ruralidade ferida de abandono, igualzinha à que conhecemos no continente.

Igualzinha nos traços gerais, mas não nos detalhes. Os muros são de basalto, em vez de xisto ou granito. Algumas plantas indígenas, lideradas pelos ensaiões (Aeonium glandulosum, Aeonium glutinosum), disputam cada palmo do muro às invasoras. Nessa comunidade de resistentes integra-se o Asplenium aethiopicum, um feto de tamanho médio (folhas até 40 cm de comprimento) que fornece uma prova adicional da africanidade desta ilha povoada por europeus. Os soros lineares no verso das pinas (2.ª foto), fazendo lembrar pinturas de guerra dos povos indígenas norte-americanos, não deixam dúvidas quanto à sua filiação no género Asplenium, um dos mais variados e populosos (cerca de 700 espécies no mundo inteiro) desta classe do reino vegetal. Mas nenhum outro Asplenium em território português (seja nas ilhas ou no continente) se confunde com este. As frondes registam alguma variação, sendo as jovens (3.ª foto) menos recortadas do que as maduras, mas em geral são bipinatífidas, enquanto que as do A. onopteris, por exemplo, são bipinatissectas (ou tripinatissectas). Isso significa que neste os segmentos (pínulas) que compõem as pinas estão bem separados uns dos outros (foto), enquanto que naquele eles o estão apenas por uma fenda que não atinge o eixo da pina.

O epíteto aethiopicum não significa que, em África, a planta apenas exista na Etiópia. Aethiopia, na antiguidade clássica, era o nome para toda a África não mediterrânica, aquela que fica a sul do Egipto, Líbia, Argélia e Marrocos; na taxonomia botânica, o nome aethiopicum é mais usado para plantas sul-africanas. De facto, o Asplenium aethiopicum foi primeiramente descrito a partir de exemplares colhidos na África do Sul; e, apesar de estar muito espalhado por África (ver nesta página), talvez nem exista no país a que hoje chamamos Etiópia (antiga Abissínia). Em compensação, a sua distribuição global é vastíssima, pois é tido como nativo da América tropical (incluído Caraíbas), de África (incluindo Madagáscar), da Austrália e do sudeste da Ásia. Num feto tão viajado, não é surpresa que a variabilidade seja grande, e só na África do Sul estão registadas umas quatro subespécies, diferindo umas das outras no tamanho e no grau de divisão das frondes, e também, mais subtilmente, no número cromossómico e no modo de reprodução (sexuada ou apomíctica). Algumas variantes (exemplos: 1, 2) parecem-se pouco com a versão madeirense, mas outras já se assemelham bastante (exemplo). As plantas madeirenses foram emancipadas em 1991, por José Ormonde (no artigo The Macaronesian representatives of the Asplenium aethiopicum complex, publicado no n.º 43 do Boletim do Museu Municipal do Funchal), numa nova subespécie a que ele chamou braithwaitii, endémica da Macaronésia (Madeira, Canárias e Cabo Verde), mas a aceitação deste taxon não é unânime.

24.1.17

Sinos dourados

Lembra-se, caro leitor, da Azorina vidalii, espécie única de um género da família Campanulaceae que é endémico dos Açores? Pois bem, o arquipélago da Madeira também tem a sua quota de campânulas endémicas: o género Musschia, nome dedicado ao botânico Jean Henri Mussche (1765-1834), só existe na Madeira e Desertas, e dele há registo de três espécies.


Musschia aurea (L.f.) Dumort.



As plantas da espécie Musschia aurea, fáceis de avistar em fissuras de rocha de algumas falésias do litoral sul madeirense, são herbáceas perenes de uns 50 cm de altura, com rosetas de folhas luzidias e flores amarelas dispostas em panícula piramidal. Estranha-se que sejam parentes das frágeis campânulas e lobélias mas, descontando o exagero no tamanho, notamos semelhanças entre todas elas. Repare-se, por exemplo, nas folhas bi-serradas mais estreitas na base, no cálice de sépalas longas, nas pétalas reviradas para fora, nos estigmas unidos ao centro. Não esperávamos vê-las em flor (ao contrário dos muitos pés de Gennaria diphylla a bordejar as levadas), mas na Ponta do Garajau, em rochas e muros mais sombrios, havia ainda alguns exemplares viçosos.



As plantas da espécie Musschia wollastonii são arbustivas, com caule lenhoso que pode atingir os dois metros de altura. Moram no interior extremamente húmido da ilha da Madeira, sob o ruído constante da água a correr e à sombra das magníficas árvores da laurissilva. Para as encontrar neste cenário especial, munidos de lanterna de mineiro, botas anti-derrapantes e bordão, atravessámos um túnel estreito, de uns 600 metros de comprimento, que acompanha parte da levada do Folhadal. As folhas são grandes e penugentas, estreitando na base, e formam um saiote engraçado porque a roseta basal se vai elevando à medida que o talo cresce. As flores, da Primavera e Verão, têm corola avermelhada e agrupam-se em panículas piramidais de cerca de um metro de altura. É uma espécie monocárpica: cada planta só floresce uma vez na vida, morrendo depois de lançar o seu fogo de artifício. Na lista vermelha da IUCN, a M. wollastonii está na categoria das espécies em risco pelas inúmeras ameaças ao seu habitat.


Musschia wollastonii Lowe



Em 2007, foi descrita uma outra espécie também monocárpica, Musschia isambertoi, cujo epíteto homenageia o vigilante da natureza Isamberto Silva, seu primeiro descobridor, que se distinguiu na colaboração com várias gerações de botânicos na Madeira. Dela conhecem-se apenas duas populações na Deserta Grande. Diferencia-se das anteriores essencialmente pela corola verde das flores, pela inflorescência só dividida no topo da haste floral, e pelo formato e indumento das folhas. R. Lowe, que certamente visitou as Desertas pois descreve a flora destas pequenas ilhas na obra A manual flora of Madeira and the adjacent islands of Porto Santo and the Desertas (1868), não a terá visto porque, no século XIX, o excesso de cabras e coelhos terá reduzido drasticamente o contingente desta e de outras espécies. As mesmas que agora, sendo as Desertas uma reserva natural e estando as visitas controladas ou mesmo proibidas, recuperam aliviadas de um tal excesso de predadores.

17.1.17

Madeira Fern Fest (1)


Arachniodes webbiana (A. Braun) Schelpe subsp. webbiana



Férias na última semana do ano por imposição da entidade patronal, entre as luzes dos presépios gigantes, a música melosa embalando ruas e centros comerciais, a promessa de multicoloridos fogos de artifício ao último toque da meia-noite. A Madeira não é o melhor lugar para fugirmos ao espírito da quadra, até porque nos calhou ficarmos hospedados na vila com a maior concentração de presépios do mundo ocidental, mas o clima subtropical proporcionou-nos, mesmo em Dezembro, algumas gratificantes descobertas botânicas. Cabe aqui um tímido protesto por a flora madeirense não ter tirado, a nosso ver, o máximo proveito da amenidade do clima. Vigora ainda um temeroso respeito pela divisão clássica do ano em quatro estações que, com propriedade, só se aplica a latitudes mais agrestes. Não se vislumbra motivo razoável para a opção assumida pela maioria das plantas da ilha de florir naqueles meses que, no continente, chamamos de Primavera. Há flores na Madeira em Dezembro, mas não tantas como seria possível ou desejável. Para compormos o ramalhete de novidades, viramo-nos para os fetos, essas plantas austeras, avessas a enfeites, que se mantêm todo o ano iguais a si próprias.

O primeiro feto a comparecer, de seu nome Arachniodes webbiana, é um habitante da mítica laurissilva que reveste as abruptas encostas da metade norte da Madeira. Este feto de grandes folhas, que podem atingir um metro de comprimento, vive em florestas húmidas e permanentemente ensombradas. O formato pentagonal da folha, com as duas pinas basais muito maiores e mais divididas do que as restantes, pode fazer lembrar o feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa). Este último, contudo, é de maior envergadura (quase 2 metros) e apresenta soros marginais (ver foto), enquanto que no feto madeirense os soros estão distribuídos pela face inferior das pínulas (2.ª foto acima).

No desenho minucioso das suas frondes, a Arachniodes webbiana faz inteira justiça à teia de aranha que o seu nome invoca. Para melhor exibir tão elegante simetria, a estipe, com uns 50 cm de altura, é vertical, fazendo um ângulo quase recto com a lâmina da folha, que adopta a posição horizontal. É quase inexplicável que um feto de tão óbvias qualidades ornamentais não seja cultivado em jardins.

Apesar da abundância de habitats propícios, a Arachniodes webbiana aparece apenas em raros lugares da laurissilva, aproveitando então para formar populações numerosas. Endémica da ilha da Madeira, a raridade torna-a ainda mais vulnerável e preciosa, mas noutras eras ela ou os seus antepassados próximos terão tido uma distribuição bastante mais ampla. De facto, uma sua irmã gémea (Arachniodes foliosa, ou Arachniodes webbiana subsp. foliosa) sobrevive no sudeste de África, numa faixa que vai desde o Uganda e o Quénia até à África do Sul. As duas espécies (ou subespécies), mal se distinguindo na morfologia, são geneticamente distintas, já que a madeirense é diplóide e a africana é tetraplóide. Isso sugere que a estirpe insular é a mais antiga das duas, e sublinha o estatuto único da laurissilva madeirense, refúgio de tantas relíquias do passado da Terra.

10.1.17

Pequena umbela amarela



Thapsia minor Hoffmanns. & Link

Pequenas, grandes ou assim-assim, muitas são as umbelas amarelas que enfeitam os campos na Primavera e no Verão. A mais abundante no continente e nas ilhas é o funcho (Foeniculum vulgare), que apesar de ultrapassar a estatura de um adulto exibe uma umbela de acanhadas dimensões. Mas não é pelas flores que o funcho é apreciado, e são as plantas menos utilitárias que têm de se esforçar no capítulo da beleza. A campeã em altura e em efeito ornamental é a canafrecha (Ferula communis), disseminada pelo centro, sul e interior norte do país mas ausente do noroeste. Usando igualmente a ideia das inflorescências esféricas, a tápsia (Thapsia villosa), com uma altura máxima de 2 metros, fica em vistosidade um pouco aquém da canafrecha. O que temos hoje no escaparate, ainda na temática amarela, é uma tápsia em versão de bolso, com caule mais débil (30 a 90 cm de altura), umbelas mais ralas e achatadas, ideal talvez para um jardim modesto, ou mesmo para um vaso de trazer por casa se a fraca luminosidade a não fizer definhar.

A tápsia-maior (chamemos-lhe assim para fazer contraponto à menor) é uma planta todo-o-terreno, mas em Portugal aparece sobretudo em áreas de clima mediterrânico (bacia do Douro, Algarve) e em substratos calcários. A tápsia-menor, com fobia por solos básicos, frequenta o sub-bosque de pinhais, sobreirais e carvalhais de Quercus pyrenaica, e também, ocasionalmente, clareiras de urzais como aqueles que revestem as encostas da serra da Boneca (Penafiel), onde a fotografámos. Durante algum tempo, e foi essa a opção de Franco no 1.º volume, de 1971, da Nova Flora de Portugal, as duas tápsias foram integradas na mesma espécie, considerando-se a agora chamada Thapsia minor como um extremo de variação da Thapsia villosa. O assunto foi tirado a limpo com a publicação, em 2003, do volume X da Flora Iberica, dedicado à família das umbelíferas. Prova de que a ciência não é imune a retrocessos, não se tratou de baptizar uma espécie nova, mas sim de recuperar o nome que Hoffmannsegg & Link lhe haviam dado em 1834 no volume 2 da Flore Portugaise (ver aqui). A tápsia-menor, diga-se, tem a distinção de ser um endemismo ibérico, enquanto que a tápsia-maior também vive em França e no norte de África.

O que interessa a estas umbelíferas não é serem agradáveis aos nossos olhos. Isso é apenas efeito colateral do seu indiscutível sucesso a atrair insectos que, por via da polinização, lhes garantam a produção de sementes. E eles mostram-se tão empenhados nas suas funções que nem descansam ao fim-de-semana, como comprovam as fotos (tiradas num sábado) onde, além das formigas, vemos afanosamente mergulhados nas flores dois outros bichos a que, por incurável ignorância, chamamos escaravelhos.

3.1.17

Flores de outras heras



Glechoma hederacea L.

Para as plantas herbáceas perenes, o Inverno é tempo de descanso forçado pelas poucas horas de sol e pelas longas noites frias. A maioria delas resguarda-se no subsolo, pacientemente à espera de Março. Algumas, porém, apreciadoras de sombra e humidade, aproveitam esse recolhimento geral para avançarem determinadas pelo solo, enraizando os caules e garantindo para si na Primavera os melhores recantos. Parece ser o caso da herbácea rasteira das fotos. Outrora com uso medicinal e culinário, alguns chamam-lhe erva-de-São-João, outros ground-ivy. Para quem, como nós, insiste em procurar plantas que não estão em flor nesta altura do ano, estes são os exemplares que, de tão sozinhos, reconhecemos pelas folhas. As da Glechoma hederacea lembram as da hera (do género Hedera), e são reniformes com margens dentadas ou crenadas.

Esta é a única espécie do género Glechoma que ocorre na Península Ibérica, onde parece restringir-se ao norte e oeste. A descrição da Flora Ibérica sugere que é abundante em bosques caducifólios de quase toda a Europa e parte da Ásia, mas por cá tem sido raro encontrá-la. As fotos são de espécimes de Macedo de Cavaleiros (junto ao rio Azibo), mas poderiam ser do Gerês (perto da albufeira de Salamonde) ou de Chaves (nas margens do rio Mousse). A preferência por habitats ribeirinhos fartamente arborizados, ainda não convertidos em praias fluviais, confina esta espécie, no nosso país, a uns poucos e recatados lugares.



Com o perfil e formato típicos da família das labiadas, as flores de Glechoma (femininas ou hermafroditas) usam, além do aroma, sinais de cor no espectro ultravioleta que guiam os polinizadores até ao néctar -- e que são desligados quando a polinização acontece. Nos refúgios com parca luminosidade onde estas plantas vivem, a cor roxa suave que vemos na corola das flores surge ao olhar dos insectos claramente dividida em duas zonas de tonalidade distinta, realçando-se desse modo o centro da flor onde estão os nectários e a polinização se pode efectuar. É uma conversa silenciosa esta que as flores mantêm com os insectos.

27.12.16

Posfácio

Escrevi este texto, por convite, em Janeiro de 2015, para servir de posfácio a uma edição ilustrada do conto O homem que plantava árvores, de Jean Giono. Dois anos depois, é inevitável concluir que a edição encalhou de vez. Mesmo que alguma vez saia do prelo, não é certo que inclua o texto tal como está. Acho que ele merece ser lido, e aproveito a ocasião para o ilustrar a meu gosto. Mais do que um comentário ao conto de Jean Giono, trata-se de uma celebração dos carvalhos e dos carvalhais.

Plantar árvores: porquê, onde e quais?

Elzéard Bouffier, o protagonista do conto de Jean Giono, fez com que uma região árida se transfigurasse ao plantar centenas de milhares de árvores. A água regressou aos ribeiros e às fontes, os vales voltaram a ser férteis e a recompensar os cultivadores, voltaram as flores e os pássaros, aldeias outrora em ruínas foram reocupadas por uma nova e esperançosa geração. Se as árvores puderam fazer tudo isso; se sabemos, além do mais, como elas tornam respirável o ar que nos envolve, e como é agradável a sua sombra nos dias de estio - então plantar árvores, e quantas mais melhor, é indiscutivelmente uma boa ideia.
Contudo, uma boa ideia mal executada pode ser contraproducente. Nem todos os lugares são indicados para o plantio, nem todas as épocas do ano são ideais para essa tarefa, nem todas as árvores são igualmente desejáveis, nem toda a gente domina as competências úteis para uma operação bem sucedida. E, em muitas ocasiões, é mais acertado e valioso plantar árvores na cidade (seja para arborizar uma rua, um jardim ou um parque) do que em espaços naturais.
Portugal é um país bastamente arborizado, sobretudo no norte e centro do seu território. Só na extensa planície alentejana, onde os esparsos povoamentos de sobreiros e azinheiras se estendem sem fim à vista, é que nos domina a impressão de serem escassas as árvores para uma província tão vasta. E mesmo aí o cenário muda ao sermos confrontados com olivais intensivos em que as árvores se concentram aos milhares por hectare. No resto do país, vemos desfilar eucaliptais, pinhais e acaciais em formação cerrada ao longo de auto-estradas, vias rápidas e estradas nacionais. Todas essas árvores cumprem tarefas ambientais da maior importância, a começar pelo tão falado «sequestro do carbono». Só que, além da vertente global em que se joga a habitabilidade futura do planeta, as nossas preocupações com o ambiente devem atender a aspectos locais, em que a palavra-chave é «biodiversidade». Numa plantação de eucaliptos (ou de pinheiros, ou de choupos-negros) o ar pode ser puro e revigorante, as águas do ribeiro podem ainda correr frescas e cristalinas. De facto, se forem esses os únicos parâmetros de comparação usados, talvez o eucaliptal não seja assim tão inferior ao carvalhal. Mas um carvalhal maduro tem muita coisa além dos carvalhos: tem prímulas, anémonas, lírios, hipericões, morangueiros, gerânios, gilbardeiras, madressilvas, selos-de-Salomão, violetas, narcisos e jacintos; tem variadíssimos fetos, musgos, fungos e líquenes; tem medronheiros, azevinhos, padreiros, loureiros e azereiros; tem os vermes e insectos que se alimentam da profusão vegetal, e os pássaros e reptéis que fazem pasto dos insectos; tem esquilos, javalis e corços. Em contraste com a vida exuberante de uma genuína floresta, uma plantação florestal é um deserto verde.
Assim, se a nossa motivação for dar uma mãozinha à natureza, é preferível plantarmos carvalhos e outras árvores autóctones, mais capazes de interagir com a vida à nossa volta do que as árvores originárias de outros países ou continentes. Devemo-nos lembrar, porém, de que as árvores já existiam no planeta antes de surgir a espécie humana, e que elas sabem reproduzir-se sem a nossa ajuda. Em espaços onde a natureza foi preservada ou tem condições para se regenerar, é talvez preferível acarinhar aquele rebento de carvalho que nasceu espontaneamente em vez de insistirmos em plantar o nosso. Nesses lugares, a exemplo do que fez Elzéard Bouffier, é quase sempre melhor semear do que plantar, tendo o cuidado de fazer uso, sempre que possível, de sementes fornecidas pelas árvores que já lá existam.
E será que, se dispusermos (luxo improvável nos dias de hoje) de um terreno amplo, e formos capazes de igual paciência e sabedoria, podemos ao fim de muitos anos criar uma floresta tal como fez Elzéard Bouffier? As centenas de anos que leva um carvalhal maduro a estabelecer-se dificilmente podem condensar-se nas poucas décadas em que decorre uma vida humana. Mas talvez consigamos uma biodiversidade razoável se não sujeitarmos o nosso projecto de floresta à mesma limpeza cega e obsessiva com que nos jardins urbanos se aparam os relvados.
Se, em muitos lugares, a melhor ajuda que podemos dar à natureza é não a perturbar, abdicando com humildade de deixar a nossa marca, já na cidade o caso é outro, pois a maioria das árvores que lá existem tiveram mesmo que ser plantadas. E aí plantá-las é uma questão de saúde pública, tanto física como mental. Já não se trata de imitar a natureza, mas de dela tomar de empréstimo algo que amenize o artificialismo do meio urbano. Seleccionar a árvore adequada para cada local (em rua estreita ou jardim acanhado não cabem carvalhos nem plátanos); plantá-la na altura certa (quando caem as primeiras chuvas do Outono); não esquecer que, depois de plantada, a árvore vai precisar das nossas atenções durante dois ou três anos para não morrer à míngua de água: eis algumas das preocupações a ter em conta. E, se certas árvores exóticas (como a tília, o plátano, o ginkgo, o tulipeiro e as diversas magnólias) são excelentes para as cidades, tanto pela sua resistência à poluição como pelas suas virtudes ornamentais, não seria mau dar às nossas árvores autóctones, que têm sido tão ignoradas, algum protagonismo na arborização urbana. Além dos carvalhos, sobreiros, azinheiras, lódãos e padreiros (os dois últimos já plantados com alguma assiduidade em jardins e arruamentos), poder-se-iam usar loureiros, azevinhos, azereiros, bétulas, zelhas, cerejeiras, freixos, sanguinhos e pilriteiros: entre árvores de folha caduca ou de folha perene, de grande, médio ou pequeno porte, umas que resistem melhor ao frio e outras ao calor, são muitas as possibilidades de escolha.
Não sendo esta a ocasião para descrever todas essas árvores, não queremos deixar de falar do carvalho, esse construtor de florestas. Na verdade são várias as árvores designadas por esse nome, já que em geral o termo «carvalho» pode aplicar-se a todas as espécies arbóreas ou arbustivas do género Quercus, das quais se contam pelo menos oito em Portugal. O que todos os Quercus grandes ou pequenos têm em comum são as sementes em forma de bolota. Contudo, é mais corrente reservar-se o nome «carvalho» para as árvores de folhagem caduca ou marcescente, já que as espécies perenifólias como o Quercus suber (sobreiro), o Quercus rotundifolia (azinheira) e o Quercus coccifera (carrasco) são amplamente conhecidas por outros nomes. Usando essa terminologia mais estrita, são quatro as espécies arbóreas a que em Portugal chamamos carvalho. Um deles, o Quercus canariensis, só existe por cá na serra algarvia de Monchique, e daí o ser conhecido como carvalho-de-Monchique. Muito semelhante no porte e na folhagem é o Quercus faginea (carvalho-cerquinho ou carvalho-português), que é o carvalho mais comum no Algarve e no litoral centro, reaparecendo depois na Terra Quente transmontana. É especialmente frequente no Maciço Calcário Estremenho, onde é a principal árvore nos bosques naturais mais bem conservados. Árvore de médio porte, não ultrapassando os 20 metros de altura, de copa larga, as suas folhas são aproximadamente elípticas, com margens dentadas. Os dois restantes carvalhos portugueses têm folhas profundamente recortadas (ou lobadas), mais de acordo com a imagem tradicional que temos dessas árvores. O Quercus robur (carvalho-alvarinho ou carvalho-roble), capaz de exceder os 30 metros de altura e de viver várias centenas de anos, é tido em grande parte da Europa como o carvalho por excelência, tanto pelas históricas florestas em que era (e é) a árvore dominante como pela madeira que fornece, uma das mais estimadas em marcenaria. Era nestas árvores que o druida da aldeia de Astérix se empoleirava para colher o visco, ingrediente indispensável para a confecção da poção mágica; e foram estes os carvalhos com que Elzéard Bouffier criou de raiz a sua floresta. Em Portugal, o carvalho-alvarinho, que se distribui sobretudo pelo quadrante noroeste do país (Minho, Douro Litoral e Beira Litoral), pode ser apreciado como árvore isolada (vários são os exemplares multicentenários classificados como «árvores de interesse público») mas também formando bosques mais ou menos extensos. Os nossos melhores carvalhais encontram-se no Minho, e no Gerês é justamente famosa a Mata da Albergaria, que alberga uma biodiversidade ímpar. Se avançarmos para o interior do país, ultrapassando a linha do Gerês, Marão, Montemuro e Estrela, o carvalho-alvarinho vai sendo gradualmente destronado por um carvalho de menor porte e madeira menos nobre, o carvalho-negral, que tem o nome científico de Quercus pyrenaica e é também conhecido como carvalho-pardo-das-Beiras. As folhas do carvalho-negral são mais largas e recortadas que as do carvalho-alvarinho, mas o modo mais expedito de as reconhecer é pelo tacto, já que elas são macias, quase felpudas, ao passo que as do carvalho-alvarinho são glabras. Frequente no interior norte e centro do país, desde a serra de Montesinho, em Bragança, até à serra de São Mamede, em Portalegre, o carvalho-negral tem uma grande capacidade de regeneração após o fogo, formando matos baixos e densos em áreas recém-ardidas. Menos comuns são os carvalhais bem desenvolvidos, mas vão ocorrendo aqui e ali ao longo da área de distribuição da espécie, com os mais notáveis exemplos a concentrarem-se no nordeste transmontano, em especial nas serras de Montesinho, Nogueira e Bornes.
Resulta desta dissertação que, se o leitor quiser valorizar o seu jardim ou o seu terreno plantando ou semeando carvalhos, então deverá escolher aquele que melhor se adapte ao clima e às características do solo da sua região. Em Lisboa e em toda a faixa litoral daí até Coimbra, onde predominam os solos calcários e o clima é acentuadamente mediterrânico, a opção pelo carvalho-cerquinho é quase uma (agradável) necessidade. No entanto, há nichos que podem comportar excepções, como a serra de Sintra: pela abundância de sombra e frescura, trata-se de um autêntico enclave nortenho às portas de Lisboa, onde é sabido que o carvalho-alvarinho vegeta alegremente. Subindo de Coimbra até ao Minho, e mantendo-nos mais ou menos a oeste da linha recta que passa por Seia (na serra da Estrela) e Vila Real (nos contrafortes do Marão), encontramos as regiões mais pluviosas e fartamente arborizadas do país: é o território do carvalho-alvarinho, escolha indiscutível do carvalho-a-plantar para quem lá vive. Mas mesmo aí já começa a aparecer o carvalho-negral, e não apenas nas altitudes mais elevadas onde costuma ser preponderante. Na Beira interior e na Terra Fria transmontana o caravalho-negral é a escolha de eleição, mas quem more em Vila Real ou noutro ponto da difusa linha de fronteira entre as duas espécies pode dar-se ao luxo de plantar carvalhos-negrais e carvalhos-alvarinhos à mistura.
Porto, Janeiro de 2015
Paulo Ventura Araújo

20.12.16

Mistérios de Cantanhede



Phagnalon rupestre (L.) DC.

Vim eu um dia antes para cima para estar mais perto do local onde combinámos e é isto. Combinei às 13:30, são 13:17 e ainda estou no quarto do hotel a escolher que boxers hei-de levar. Vou optar pelos justos. Os vermelhos. Afinal não é todos os dias que almoçamos com Deus!

Quem me conhece sabe que não é meu apanágio chegar atrasado. Mas como é que conseguiria evitá-lo? Combinasse onde combinasse e a que horas combinasse, Ele já lá estaria! Mesmo antes de termos combinado, Ele já lá estaria!

Ora bem... chaves, óculos de sol, telemóvel... acho que está tudo. Ah, a carteira, que Ele é menino para querer rachar a conta. Tabaco compro ali na bomba, que parece mal estar a cravar cigarros a Deus. (...) Bom, está tudo. Que nervos, estou agora no carro a imaginá-lo a olhar para o relógio e a bufar. Devia ter convidado o Buda, não é propriamente um deus, mas sempre tem fama de ser mais calmo e paciente. (...)

Olha, vai já aqui ao lado deste, que assim fica à sombra. Espero que Ele tenha percebido que era aqui na Meta dos Leitões. Há tantos restaurantes com leitão que às vezes podia... (...)

Agora que estou aqui aflito a farejar a sala com os olhos é que percebi que Deus nem me disse como vinha vestido. Nem sei do que é que estou à procura. Duma túnica branca? Dum colete de bombazina? Não sei. Cabelo apanhado? Cabelo solto? É estúpido estar a olhar para uma sala repleta de famílias que reluzem tanto ou mais do que o próprio leitão que estão a aspirar alarvemente, à procura de Deus. Espero que o meu sobrolho franzido não faça com que este empregado me aborde para perguntar o que desejo, porque está fora de questão responder...

– O que é que deseja? – disparou-me o dito empregado, sem me deixar acabar o raciocínio.
– Estou à procura de Deus. Viemos os dois ao leitão. (...)

Estão todos em grupos. Estão todos acompanhados, não vejo ninguém sozinho, a não ser aquele senhor careca e gordo, que está a... olhar para o relógio e a bufar. Será...?

– Pombares! Ó, Pombares! – diz o senhor (ainda com letra minúscula, na dúvida), acenando-me com um guardanapo branco que já me parece suavemente carimbado de queijinho seco curado.

Meu Deus, é Deus! (...)

– Gostava de lhe colocar algumas questões. E a verdade é que até agora nem me provou sequer que é Deus.
– Estás a ser parvo, Frederico. Achas que sou o quê? Vamos fazer antes ao contrário: prova-me que eu não existo. É melhor duas doses que aquilo é só osso – Rapaz! Rapaz! São duas de leitão, com molho.
– Temos então um Deus tirano?
– Querias o quê? Eleger o teu Deus democraticamente? Por acaso, têm-te corrido bem as eleições democráticas, para estares com essa moral?
– O senhor é que está mal habituado. Toda a gente fala baixinho consigo, sem razão alguma. Rezam baixinho, como se "baixo é, alto lhe parece". A bichanar, a bichanar... Porque é que as pessoas não gritam consigo?! (...) A verdade é que estas pessoas colocam a vida nas suas mãos e o Senhor lava-as sempre que pode.
– Ah! Então, para ti, não sou só a Sorte como o Azar, é isso?

E limpando os cantos da boca de quaisquer resquícios de leite creme, Deus diz-me:

– É esse o teu problema, Pombares. (...) O teu problema não é, nem nunca foi, não acreditares em mim. Como não precisas, não ligas, não tens fé – e levantou-se, aprontando-se para sair.
– Então e a conta?!
– Já está paga.
– Mas quanto lhe devo? – digo eu, com voz de quem não quer ficar a dever nada a Deus.
– Deixa estar, Pombares. Depois acertamos contas.

Sorriso de xeque-mate e, num piscar de olhos meu, desapareceu.

Frederico Pombares, Almoço divino (O Fio à Meada – diálogos imprevistos, Escrit'orio Ed., 2010)