4.7.17

Regresso ao fojo das surpresas



Dryopteris guanchica Gibby & Jermy



Tal como muita gente, este feto tem os seus progenitores na Madeira, mas abandonou a ilha natal para tentar a vida no continente. Só que o fez muito antes de as ilhas atlânticas serem habitadas, e até antes de existir a espécie humana. Um estudo genético permitiu concluir que a Dryopteris guanchica, que existe apenas na Península Ibérica (Galiza, noroeste de Portugal e serra de Sintra) e nas Canárias (Tenerife, La Gomera e El Hierro), é uma espécie tetraplóide que resultou do cruzamento de duas espécies diplóides, a D. aemula (presente nos Açores, Madeira e Canárias e no extremo norte de Espanha, mas não em Portugal continental) e a D. maderensis (exclusivamente madeirense). O acasalamento ter-se-á dado na Madeira, a menos que a D. maderensis tenha tido, noutras eras, uma distribuição mais ampla. Não é impossível, por exemplo, que tenha existido em La Gomera, a única das ilhas Canárias onde hoje se encontram tanto a D. aemula como a D. guanchica. Certo é que a D. guanchica, tenha ela o seu berço na Madeira ou nas Canárias, conseguiu instalar-se no norte da Península Ibérica partindo de ilhas que, geograficamente, são mais africanas do que europeias.

Descrita apenas em 1977, por Mary Gibby e A. C. Jermy, a partir de exemplares colhidos em La Gomera e em Tenerife, a Dryopteris guanchica deve o seu epíteto aos Guanches, antigos habitantes das Canárias subjugados pela colonização espanhola. Até então tinha sido confundida com a D. dilatata, um feto europeu, típico de bosques sombrios, cuja presença nas Canárias é duvidosa. Logo após ter sido descrita a nova espécie, uma revisão de espécimes depositados no herbário de Coimbra permitiu concluir que a D. guanchica já havia sido encontrada em Portugal, na serra de Sintra, em 1839. Em Maio de 1976, Gibby e Jermy, numa visita à serra, confirmaram que ela ainda lá vicejava na companhia da D. dilatata. Pouco depois, foi descoberta no norte de Espanha e no noroeste de Portugal, de modo que em 1982 Franco & Rocha Afonso, no livro Distribuição de Pteridófitos e Gimnospérmicas em Portugal, puderam dar um panorama quase completo da sua presença no nosso país. Os maiores contingentes vivem nas serras xistosas à volta do Porto e em especial nos fojos de Valongo, onde beneficiam de um ensombramento e de uma frescura impossíveis de encontrar nos vastos eucaliptais em redor, e engrossam uma notável colecção de fetos reliquiais que inclui a Culcita macrocarpa e o Trichomanes speciosum.

A história ensina-nos que destrinçar a D. guanchica da D. dilatata não é tarefa para principiantes, e em Portugal, onde as duas coexistem e ocupam habitats semelhantes (embora a primeira seja muito mais rara), é preciso especial cautela. As chaves dicotómicas costumam exagerar pequenas diferenças, postulando uma separação nítida quando às vezes existe uma continuidade de caracteres. Em todo o caso, as pinas basais da D. guanchica, em que as duas pínulas viradas para baixo mais próximas da ráquis são muito maiores do que as que estão viradas para cima (ver penúltima foto), são claramente mais assimétricas do que as da D. dilatata. Outras diferenças são menos óbvias: a D. guanchica é em geral mais pequena, tem as pínulas ligeiramente pecíoladas, e os dentes das pínulas são salientes, meio curvados para a frente (o efeito é visível na 3.ª foto desta página).

1 comentário :

bea disse...

Que bela descrição da genealogia destas plantas. E quanto viajaram para cruzar.