21.11.17

Erva de soldar ossos


Symphytum tuberosum L.



É pelos faiais da Cantábria que continuamos. Na primeira quinzena de Maio, as folhas ainda frescas das árvores deixam escoar breves farrapos de sol. As prímulas (Primula veris, Primula acaulis) e as hepáticas deram já por cumprida, com a produção de frutos, a lista de tarefas reprodutivas do ano; o alho-dos-ursos (Allium ursinum), o selo-de-Salomão e algumas orquídeas de bosque estão em plena azáfama de floração; e várias outras herbáceas se aprestam a iniciar a temporada. Neste último grupo se inclui o Symphytum tuberosum, a que chamaríamos consolda-menor caso existisse em Portugal. Não existindo, o nome foi usurpado por uma espécie muito diferente (Prunella vulgaris), embora o nome consolda-maior ainda seja, por lei, pertença do Symphytum officinale, igualmente ausente do nosso país. Ausente na natureza, entenda-se, pois ele terá sido, mesmo por cá, assiduamente cultivado graças a uma reputação medicinal que já vem da antiguidade.

Um dos usos terapêuticos do Symphytum está plasmado na própria palavra consolda. Acreditava-se que a ingestão de infusões com a planta ajudaria a sarar fracturas ósseas, fazendo com que os ossos partidos soldassem mais rapidamente. E o nome Symphytum, que provém do grego, significa, segundo a Flora Iberica, "fazer crescer juntamente", entendendo-se que nesse processo as partes fracturadas acabariam por fundir-se uma com a outra. Sabe-se hoje que estas plantas contêm de facto um tipo de molécula (alantoína) capaz de estimular o crescimento e reparação dos tecidos celulares, mas a sua toxicidade torna-as desaconselháveis para uso interno, já que podem causar sérios danos ao fígado. Para aplicação externa as contra-indicações não são tão assustadoras, e a planta poderá ser útil no tratamento de feridas cutâneas.

Nem todas as consoldas (ou melhor, nem todas as espécies de Symphytum) terão idênticas propriedades medicinais, e por isso de modo nenhum encorajamos o leitor à prática de medicina caseira pela colheita desta ou de outras plantas silvestres. Assinale-se, ainda assim, que o Symphytum tuberosum, embora menos afamado e muito menos cultivado do que o Symphytum officinale, também teve os seus usos na vertente solda ossos do herbalismo.

A consolda-tuberosa (chamemos-lhe assim) é uma herbácea vivaz de porte modesto, atingindo não mais do que um metro de altura, presente como nativa em quase toda a Europa ocidental (Portugal e Irlanda são excepções), que vegeta em bosques caducifólios húmidos e em margens de cursos de água. Para não entristecermos por a natureza nos ter negado contemplá-la no nosso país, lembremos que por cá há plantas da mesma família, como o chupa-mel (género Cerinthe), também de flores tubulares, que num juízo imparcial a suplantam largamente em beleza.

1 comentário :

bea disse...

Não é particularmente bonita. E se o uso medicinal é estritamente externo...não será uma perda maior que não exista hoje em Portugal.