27.2.18

Valente Valéria


Valeriana pyrenaica L.



Como tudo aquilo que foge à sua escala, seja por defeito ou por excesso, a Valeriana pyrenaica suscita a nossa ingénua admiração. Neste caso impõe-se pela sua grandeza e robustez. Ultrapassando folgadamente um metro de altura, duplica a marca da mimosa e frágil Valeriana tuberosa; e, embora não seja muito mais alta do que a V. dioica, vê-las lado a lado seria como confrontar uma bailarina com um lutador de sumo. As folhas da Valeriana pyrenaica têm o formato cordiforme das folhas das tílias que enfeitam os nossos jardins, mas são muito maiores, com 20 cm de comprimento por outros tantos de largura. Os caules grossos, simples e erectos escondem um segredo que é também uma fragilidade: são ocos e não resistem a um encontrão. Só as inflorescências compactas destoam do excesso geral, parecendo ter sido compradas na mesma loja onde se abasteceram as outras espécies, e onde não havia em stock as inflorescências XL mais à medida desta cliente.

A maior Valeriana ibérica vive, como o seu nome indica, nos Pirenéus, mas também ao longo de toda a cordilheira cantábrica e nas montanhas da Galiza. Só não é exclusivamente peninsular porque passou os Pirenéus a salto para se instalar no sudoeste de França. Vive nas margens (ou por vezes no leito) de cursos de água mais ou menos torrenciais, em bosques de folhosas (faias ou carvalhos) ou de coníferas (abetos ou pinheiros), e floresce entre Maio e Julho. Acima vêmo-la num dos muitos ribeiros que, nascidos do degelo do Pico Tres Mares e dos cumes adjacentes, se lançam através do extenso faial do Parque Saja-Besaya, na Cantábria.

Dizem as obras de referência que a Valeriana foi assim chamada por valer aos doentes numa aflição. Mas quem merecia a estima de boticários e herbalistas pelas suas inúmeras virtudes era a Valeriana officinalis, e a maioria das espécies do género não comunga dessa vocação medicinal. Fica o leitor avisado de que, se deparar com a Valeriana pyrenaica numa visita aos Pirenéus ou à Cantábria, não vale a pena colher folhas ou qualquer outra parte da planta para uma infusão. Só conseguiria estragar a planta e talvez ganhar uma dor de barriga.

21.2.18

Agrião gigante



Cardamine raphanifolia Pourr.



Uma consulta rápida à internet permite conhecer vários locais de venda on-line que comercializam saquetas de sementes desta herbácea de flores rosadas da família do saramago. Além do preço e das condições de envio do produto, informam o possível comprador de que as folhas se comem como as do agrião (os berros das ensaladas espanholas) e de que a planta é também útil para decorar as margens de rios. Mmm... Mas quem é que tem um rio em casa? E que rio é esse que precisa de atavios? E para quê gastar tempo e dinheiro para enfeitar a natureza?

Igual zelo decorativo terá presidido à decisão de bordejar as caldeiras dos vulcões açorianos com as exóticas hortênsias (Hydrangea macrophylla) e as terríveis conteiras (Hedychium gardneranum), de cuja presença e invasão a flora endémica dos Açores jamais recuperará. Idênticas boas intenções estarão na origem do flagelo que é hoje o contingente de erva-das-pampas (Cortaderia selloana) que assola a reserva de São Jacinto, e está a colocar em risco muitas outras áreas protegidas do continente.

Por isso, caro leitor, permita-nos este alerta: se se encantou como nós por esta crucífera alta e vivaz, nativa do sul da Europa e da Ásia mas ausente da flora portuguesa, e se possui uma pena-de-água no jardim a pedir aformoseamento, um prado junto à casa de campo ou um bosque com uma clareira bem irrigada na quinta dos avós, pense três vezes antes de por ali espalhar sementes deste agrião gigante, ou de outra planta bonita mas exótica cujo potencial invasor desconhece.

13.2.18

Cardo manso dos calcários


Klasea nudicaulis (L.) Fourr.



A família das asteráceas, que inclui malmequeres, cardos e algumas ervitas que diríamos insignificantes, totaliza mais de 30000 espécies e é a mais numerosa e variada à face da Terra. Há quem defenda que esse galardão cabe à família das orquídeas, ou que ele deve ser partilhado ex aequo pelas duas famílias, mas a discrepância de opiniões sobre os limites de cada espécie leva a que seja impossível tirar uma conclusão aceite por todos. Como entre os aficionados de orquídeas qualquer pequena variação leva ao reconhecimento de uma nova espécie, e essa prática não costuma ser seguida pelos adeptos de cardos e malmequeres, é de crer que o número de espécies de orquídeas esteja muito mais inflacionado que o de asteráceas. Justifica-se assim o nosso voto na primazia das segundas.

Dentro da grande família das asteráceas, cardos e malmequeres correspondem a duas das tribos mais bem representadas na flora europeia. Em ambos os casos, as flores são diminutas (é mais apropriado chamar-lhes florículos) e estão reunidas em capítulos. Nos malmequeres, os florículos são de dois tipos: os tubulares, que formam o disco central; e os ligulados, que dão as (impropriamente chamadas) pétalas (ver foto). Na tribo Cynareae (é esse o nome pomposo da tribo dos cardos e afins), os florículos são todos semelhantes; e, como se pode comprovar nas fotos acima, têm um aspecto bem diferente daqueles que compõem os capítulos dos malmequeres.

Na tribo dos cardos, que acolhe géneros tão agressivos e não-me-toques como Carduus e Onopordum, nem todas as espécies são espinhentas, e como exemplo de cardo-manso serve bem esta Klasea nudicaulis que encontrámos num prado em terreno calcário pedregoso algures na Cantábria. Trata-se de uma herbácea vivaz, quase glabra mas por vezes com folhas de margens ciliadas, com caules erectos e simples de não mais que 60 cm de altura, rematados por um único capítulo. As folhas basais são numerosas, largas e com o nervo central bem marcado; as caulinares, que existem apesar do epíteto nudicaulis, são poucas e quase lineares.

A Klasea nudicaulis está muito disseminada pelo norte e oeste de Espanha, e a sua distribuição global abrange ainda os dois lados do Mediterrâneo ocidental: França e Itália a norte, Marrocos a sul. A sua ausência em Portugal é compensada pela presença, nos calcários do centro e sul do país, da endémica Klasea baetica subsp. lusitanica.

Embora tenha sido criado em 1825, só no século XXI é que o género Klasea ganhou aceitação generalizada, acolhendo uma série de espécies antes arrumadas no género Serratula mas divergindo genética e morfologicamente da S. tinctoria, única espécie ibérica que sobrou da debandada. A diferença que mais salta à vista é que as hastes da S. tinctoria são ramificadas, encimadas por numerosos capítulos.

7.2.18

Erva de quebrar castelos



Petrocoptis pyrenaica subsp. glaucifolia (Lag.) P. Monts. & Fern. Casas



Arrumaríamos esta planta na prateleira do género Silene, como fez Mariano Lagasca que, em 1805, a designou Silene glaucifolia, se tivéssemos acesso apenas a fotos, sem poder notar como a planta é bastante mais pequena do que as silenes que conhecemos (não vai além dos 30 cm de altura) e como são igualmente diminutas as folhas glaucas e as flores, ainda que estas se reúnam em cimeiras muito vistosas. Se atendêssemos ao significado do nome do género onde ela se acolheu em 1988, por proposta de Pedro Montserrat e Fernández Casas, a estranheza não seria menor. É que Petrocoptis significa, em grego, o mesmo que Saxifraga em latim, resultando da junção de pedra (petro, saxi) e fissura (coptis, fraga). Mas a taxonomia não dá licença para estas traduções, e é certo que a planta das fotos, ainda que muito distinta das saxífragas, aprecia como estas as fendas de rochas, que preenche dando a impressão de ter sido capaz de abrir caminho na pedra. Apesar do aspecto frágil, é perene, com as plantas mais antigas formando uma base lenhosa. Gosta de penumbra e de substrato calcário seco, e a floração resiste até meio do Verão.

A espécie P. pyrenaica admite três variantes que foram promovidas a subespécies, distinguindo-se a P. pyrenaica subsp. glaucifolia, que é endémica da cordilheira cantábrica, das outras duas por não ter uma roseta basal de folhas. A distribuição em altitude é outro pormenor curioso desta subespécie. Há registos da presença dela entre 0 e 2000 metros de altitude, afirmando a Flora Ibérica que, em geral, as pétalas nos exemplares que ocorrem em regiões mais altas são esbranquiçadas, sendo cor-de-rosa ou mesmo púrpura nas mais baixas. O nosso passeio nas Astúrias para observar estas plantas fez-se entre os 600 metros (pela estrada muito arborizada que circunda a barragem de La Malva) e os 900 metros da Senda del Oso. Uns 80 km a sul, já na província de Léon, um desvio no percurso de regresso levou-nos ao castelo de Cornatel, em cujas muralhas vive uma outra versão da planta, a P. pyrenaica subsp. viscosa.


Castelo de Cornatel & Petrocoptis pyrenaica subsp. viscosa (Rothm.) P. Monts. & Fern. Casas